Bom, a partir de hoje este blog será descontinuado (que é um jeito moderno de dizer que o blog irá acabar). Mas a partir de amanhã, volto à minha antiga casa. Quem quiser continuar lendo as mesmas besteiras de sempre (ou besteiras novas), é só clicar em Bebê Diabo. Um abraço, e obrigado.
O fim está próximo. Quem viver, verá! Escrito por Lello Lopes às 15h22
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A pasta azul
Papéis perdidos, cartas antigas. Histórias que não acabam nunca. Tudo cheira a mofo e poeira. E é reconfortante, porque é meu. Porque mostra uma trilha percorrida sem medo, apesar dos erros, dos muitos e repetitivos erros. Várias histórias, que se ligam e se perdem em um ponto que já não me lembro mais. Amores. Desde os tempos de timidez, de mãos frias, de excesso de juízo. E ainda sinto falta daquele beijo que não dei, das palavras que não disse. Teria feito toda a diferença do mundo, é claro. Todos aqueles anos não teriam sido em vão. E o conserto que não houve, apesar da loucura, do risco real de morte, foi libertador. E libertou a dor, com perdão do trocadalho do carilho. A dor da paixão insana, cega, sofrida. A dor da entrega, do fogo que consome dias e noites. A dor que só a solidão da morte injusta pode causar. A dor da certeza de nunca mais amar de verdade, como se existisse amor sem verdade. E tudo passa depois de um tempo, com cicatrizes, bebidas baratas e escrita ruim. E as coisas se ajeitam meio sem querer, em outros olhos, em uma nova casa. E de repente não sou dois. É difícil e bom. É incompleto. Sinto falta do vento na cara, de viagens perdulárias, de paixão. Redemoinho de idéias. E sou um de novo, desta vez acompanhado. Envelheço cada vez mais rápido, até o fim. Duro, insensível, livre. Encontro Deus pedindo esmolas em um beco sem saída. E não tenho pena. De ninguém. São todas amigas, amores, amantes. Que chegam e se vão pelo destino, deixando para trás memórias e papéis amarelados cheirando a mofo e poeira em uma antiga pasta azul escondida dentro do armário.
Deslizo minha mão sobre o teu rosto frágil. Estes teus olhos familiares agora me observam de maneira diferente. O meu sorriso se reflete na tua boca. Sinto a tua respiração excitada e o teu hálito de desejo. Afago os teus cabelos suaves. Perco os meus dedos na maciez da tua nuca. Olho nos teus olhos de fogo e me aproximo. Tantas vezes nos vimos, tanto nos falamos, e agora tudo é diferente. Tenho você nos meus braços. Os corpos quentes se encontram e se unem. Olhos, bocas, sonhos. E o mundo não é mais o passado. O mundo é esse eterno minuto. Somos um e somos vários até os nossos corpos se largarem. Exaustos e satisfeitos. E os teus olhos ficam diferentes de novo. Agora eles têm a cor dos meus.
(Publicado originalmente em Bebê Diabo – 10/07/04)
Às vezes me pego pensando em você. Em um momento de folga durante o dia ou na solidão da noite eu vejo os seus olhos. Sinto dor e ternura. E vontade de estar ao seu lado, nos seus braços. Como deveria ter sido desde sempre, desde décadas atrás.
Às vezes me pego sonhando com você. De mãos dadas na praia. Justo eu, que odeio praia. Mas estou feliz por estar contigo. Agora, sempre e sempre. Um sonho bom que não acaba nunca.
Às vezes me pego fazendo planos. Com você. A nossa casa, nossos filhos, nossos bichos. Coisas de conversas madrugadoras, brincadeiras reais, avassaladoras. Que me tomaram de assalto, seduziram, encantaram.
Às vezes me pego perdido. Passo o tempo em outros braços, em outras coxas, em outros beijos. Mas a cabeça vai longe, o coração também. E tudo fica incompleto e irreal, como um livro sem final.
Às vezes me pego chorando. Uma angústia sofrida, que me esmaga e queima e dói e afoga e apaixona. E volto à adolescência que não tive. E a alma inquieta clama por mais e por paz, como se as duas coisas pudessem vir juntas.
Às vezes me pego pensando em você. E tudo muda de cor. E tudo faz sentido pela primeira vez de novo. E tudo é possível. E tudo é esperança. E é tudo o que tenho enquanto não tenho você.
O grito feroz das teclas quebrava o silêncio mórbido da madrugada paulistana. Carlos parou e observou atentamente a tela. Com um gesto de negação, suspirou fundo e não teve dúvida: delete.
Tudo apagado, ele imaginou o tempo que a máquina de escrever era a melhor amiga dos escritores e jornalistas. Chegou até a ouviro som do papel repleto de erros sendo retirado ferozmente da máquina e jogado na lata de lixo. Depois, a velha elétrica ficaria lá, humilde, aguardando as novas ordens de seu amo. Acordado, viu o sarcástico cursor piscando intermitentemente na tela do computador, com um instinto de superioridade ameaçador. Como as coisas mudam, pensou.
Quando o relógio mostrou 3 horas, o desespero tomou conta de Carlos. Só conseguia lembrar da conversa que teve com seu editor pela manhã. “Você é bom, rapaz” – disse o editor – “Só precisa ser mais individual no que escreve. Aqui não gostamos de um texto burocrático. Isso tem aos montes. Queremos coisas novas, gente nova como você. Vá pra casa e refaça isso. Só que desta vez escreva do jeito que sente, e não da maneira como te ensinaram”.
Foi assim o seu primeiro dia no novo emprego. O futuro quetanto sonhara havia chegado. Desde criança pensara em ser jornalista. Lutou para isso. Entrou na faculdade e logo começou a trabalhar. Seu primeiro emprego foi num jornalzinho de bairro. Medíocre. Sempre de cabresto fazendo matérias pagas. O salário mal dava para pagar a faculdade, mas ele adorava aquele espírito de jornal. Agora não. Agoraa Grande Imprensa. Ia ficar famoso, rico, um boêmio cercado de belas garotas. Bom, pelo menos este era o seu sonho ingênuo, que nem a realidade conseguia apagar.
- Calma, Carlos! Calma, Carlos! – dise ele, acendendo um cigarro. Estilo, o que é estilo? Estilo é tudo o que individualiza o espírito humano. O que é que eu tenho de diferente dos outros?
E refletiu. Cinco, dez minutos. De repente, ergueu o rosto e chorou. Foi quando se deu conta de que não tinha nada, absolutamente nada, de diferente dos outros. Tudo o que vivera, tudo o que sentira e o que pensara sempre foi exatamente igual ao que os outros viveram, sentiram e pensaram. E ele até que se esforçou para entrar neste mundo de clones. Sempre comprando a roupa da moda ou indo aos lugares do agito. “Se todo mundo tem, eu também vou ter!” – falava. E foi com esta idéia que comprou o carro do ano e o celular de última geração.
- Deus, eu não sei quem sou! O que penso é o que todo mundo pensa, o que visto é o que todo mundo veste. Eu sou todos e ninguém ao mesmo tempo.
A certeza veio avassaladora. Ficou transtornado. Passou as últimas horas da madrugada imóvel, à frente do computador, olhando fixamente aquele irritante tracinho preto que insistia em pular soberbo, dono da tela. Mas não prestava atenção. Pensava, pensava, pensava...
Seis horas, a casa ainda dormia quando calou o peito amargurado e abriu um tímido sorriso. Desceu as escadas, pegou uma folha em branco, uma caneta vermelha e escreveu: “Matéria: Estilo. Entre não ser nada e ser tudo, eu prefiro não ser. Matéria Final”.
Dobrou o papel em três partes, guardou-o no bolso e saiu apressado porta a fora. Destino: metrô. Saltou na Estação da Sé. O povo já se engalfinhava para entrar no trem. “Palhaços!” – disse. Calmamente, dirigiu-se ao começo da plataforma. O próximo trem já chegava e ele sabia o que precisava ser feito. Quando o trem entrou na estação, Carlos pulou nos trilhos com uma certeza pouco vista no rosto de um homem. Acho até que estava feliz. Pela primeira vez na vida seguiu o seu instinto. Tomou uma decisão por conta própria, sem nenhuma interferência, sem conselhos estúpidos ou ordens imbecis. Afinal, encontrou o seu estilo.
És grande
no esporte bretão, O passado ilumina tua história. Ciente de tua missão:
Vitória, vitória, vitória.
Corinthians do meu coração, Tu és
religião de janeiro a janeiro. Ser corintiano é ir além De ser ou não
ser o primeiro. Ser corintiano é ser também Um pouco mais brasileiro.
Tens a tradição De um clube tantas vezes campeão. Pelos teus
rivais, temido; Pela tua FIEL, querido.
Ser corintiano é ir
além De ser ou não ser o primeiro. Ser corintiano é ser também Um
pouco mais brasileiro.
(Isso é
o que, na verdade, importa. E ponto final.)
Sensação esquisita essa, a de perder aquilo que nunca tive. Ausência da ausência, esquizofrenia. E ela esteve tão perto, tão perto, que quase pude afagar-lhe os cabelos. Os planos sumiram. Assim como as conversas. E tudo só não volta ser como era antes porque fica no peito essa dor estranha. Culpa minha, sempre. Por esperar demais, por temer demais, por sonhar demais. E por amar demais. Tudo em vão. Como sempre. E o silêncio da noite vai dizer as coisas que não quero ouvir. Justo agora que tinha a certeza de que era a pessoa certa, como se existissem pessoas certas. E os planos eram tão lindos. Agora sei que o beijo que me deu esta noite no sonho foi de adeus. Só sobraram as coisas que queria dizer e nunca disse.
Por dois minutos a Mooca parou. Dois longos minutos de desespero, de agonia, de aflição. Por dois minutos as mammas deixaram a macarronada abandonada no fogo, as crianças colocaram o videogame de lado, os homens dobraram os jornais. Por dois minutos, ninguém respirou. Por dois minutos o impossível aconteceu.
A verdade é que o Juventus entrou em campo campeão, senhoras e senhores. Onze guerreiros grenás, moleques travessos, que precisavam apenas fazer o relógio correr por 90 minutos para sacramentar o que já estava certo.
Estava fácil. Como esse tal de Elias mostrou ao acertar aquele chute de fora da área. 1 a 0, quase rotina. Mas o futebol não é como a vida, e o impossível acontece. Acontece no cochilo do beque, no passe errado do meia, na falta de pontaria do atacante. Neste domingo, o impossível começou a acontecer quando Jhonny, logo ele, acertou a trave na cobrança de pênalti.
E o impossível é cruel. Empate em 1 a 1, virada 2 a 1. E a Mooca passa a tagarelar menos, a sofrer mais. A Javari vira um suspiro preso com o tempo que teima em não passar. E é dor no pênalti contra aos 47 minutos do segundo tempo.
O impossível é um gol de uma derrota inesperada, inexplicável. Mas meu querido senhor, minha estimada senhora, até os canoles da Javari sabiam que o Moleque não deixaria o campo sem uma última travessura. E ela demorou dois minutos para acontecer.
No último chute do jogo, no último chute do campeonato, o menino João Paulo acertou uma bola mágica. Há quem diga que foi um zagueiro do Linense que colocou a bola para dentro. Não foi. Foi o fantasma do grande Clovis, sempre ele, que ajudou o Juventus a conquistar o título.
E a Javari, que estava mais cheia do que no dia que Pelé deu cinco chapéus seguidos e marcou contra Mão-de-Onça, pôde enfim voltar a respirar. Pôde enfim a gritar é campeão, em uma voz molhada e grená. E as mammas voltaram ao fogão, as crianças jogaram videogame e os homens leram os seus jornais. Campeões.
caminhando há dias por esta paisagem árida, já estou sem saber o sentido das coisas. agora tudo é formado de sensações. o céu já mudou de cores tantas vezes (passou do anil para o verde, o vermelho, o rosa-choque até chegar a este ocre sem graça) que não me surpreende mais. ao menos parou de chover, aquela chuva tão fina e triste que eu diria que eram lágrimas de deus, se deus chorasse
dias e dias sem ninguém ao lado, sem árvores, rios ou barrancos para conversar. dias e dias de silêncio quase absoluto, quebrado pelo gemido distante das nuvens e por um rádio que insiste em transmitir estática. dias sem fome, sede ou sono. só sobrou o cansaço, como sempre
e os pensamentos, estes insanos. lembranças de um passado turvo, de quase-amores, de famílias felizes, despedaçadas, vivas em outro lugar. sem mim, sem nós, sem quase nada, a não ser sexo e piedade
verdade ou mentira? realidade ou imaginação? desejo ou medo? não sei, não me importo, não tenho nada a ver com isso. são pequenos seres vivos (memórias????) que caminham no fiapo que um dia cheguei a chamar de lucidez
e como faz falta uma taça de vinho, uma droga ilícita, uma televisão. só tenho o chão seco e um rádio quebrado. inúteis, inúteis, inúteis
vida/amor/vida/morte/vida/sonho/vida/vida. tudo mais do mesmo. e tudo tão ao alcance das mãos. como um beijo doce que um dia foi meu, só meu
pensamentos, memórias, sonhos, dor de cabeça. e o rádio estala. a estática começa a ganhar forma, contornos suaves, femininos, sensuais. uma voz de algodão canta lá no fundo, uma música de um único tom, uma única nota, um único verso, uma única frase, uma única palavra